Não sei quantas almas tenho
(...)
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.
(Fernando Pessoa)
Fernando Pessoa. Não sei exatamente como expressar minha paixão por ele. Gostaria que ele viesse até mim através de um de seus homens seguidores. Tão cheio de margens e limites demarcados com graciosidade e firmeza; seus pontos são multidisciplinares.
Porque seria ele mortal? Talvez porque alguém sabia que o ser que somos valoriza o inviável, o inalcançável desejo de ter o que não tem, de ser o que gostaria de ser e não o que realmente é. Talvez se ele não estivesse morto suas obras não seriam tão vivas, seus passos não seriam tão seguidos e sua vida tão valorizada.

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